Ficção Autobiográfica


Tchau

Tudo na vida tem que acabar um dia, e esse blog cumpriu seu tempo.

Foi bom. Tive experiências interessantes com camaradas e desconhecidos aqui. Mas o que quer que o "Ficção Autobiográfica" tivesse a dizer, já disse. Disse até um pouco demais, mas o excesso faz parte da vida.

Acabou. Como acabou minha paciência para o orkut.

Continuarei o lendo os blogs linkados aí do lado porque são muito bons, e recomendo qualquer um a fazer o mesmo. Não que minhas recomendações valham, mas basta visitar os blogs para que os textos falem por si.

Eu estou direcionando minhas energias e meu tempo para outras coisas que não a internet. Quem sabe (e é muito provável, ou assim espero) que o tempo trará novas idéias e eu voltarei a escrever. Mas não agora nem aqui.

Obrigado a todo mundo. Abraço grande!



Escrito por Leonardo Vinhas às 18h49
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Já disseram que só leio sobre bêbados e fracasados, ou melhor, que só leio escritores bêbados e fracasados (e por isso não tenho "sucesso").

Quem diz isso não me conhece, tampouco conhece meus hábitos literários.

E num mundo de mediocridade, Rubens K traz alento. Por que não inunda o mundo de positivismo insosso? Não, o Rubão tem os demônios dele e não quer ninguém fazendo xamanismo pagão com ele. Ele conhece Deus, mas tem lá seu relacionamento com Ele e não cabe a ninguém querer interferir nisso. Se a alma dele pede orações, é como diz o Piedoso Dundas: "quem tem que rezar é ele mesmo".

Só sei que o Rubão é um grande amigo. Mesmo. É o cara que, de certa forma, me colocou aqui (aqui, no caso, significando esse blog, inquietude e Foz do Iguaçu, nessa ordem). É também o cara que me apresentou o Bagana na Chuva e todo o trabalho do Mário Bortolotto. É o cara que me acolheu na casa dele sem nunca ter me visto. E é o cara que escreveu isso aqui:

 

Eu tinha um objetivo quando não sabia que era impossível.

Eu tinha uma verdade quando não sabia que a mentira é mais forte.

Eu tinha um compromisso com você e nunca atrasava, nem quando não tínhamos o que comer mas tínhamos muita vontade de nos descobrir e trepar a noite inteira.

Eu tinha uma desconfiança às promessas de uma vida de glamour.

Eu tinha amigos que eram o mesmo que eu.

Eu tinha essa idade onde o maior problema é a urgência.

Eu desafiava Deus em cada esquina e deve ser esse o meu pecado.

Eu criticava a sua plenitude, o seu paraíso e o seu inferno.

Eu queria ser consultado em relação à criação.

Estou incerto de todas as coisas que antes acreditava.

Eu carrego a culpa entre o suor dos dedos do pé esquerdo.

Eu desconheço o sentido da vida depois de todo esse tempo.

Eu não durmo mais a noite tentando me reconciliar com Deus, com o seu paraíso, com o seu inferno.

Eu preciso que você seja boa comigo, pois perdi o senso de bondade.

Eu preciso aprender tudo de novo, talvez morrer e nascer.

Eu preciso saber a hora que tudo isso vai parar.

 

 

Essa foto ainda vai ser antológica.



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h59
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Melhores de 2005 (de novo?)

Fiz minha lsita de melhores do ano para o Scream&Yell meio que na pressa, como é minha praxe. Na verdade, essas listas nunca são definitivas e ter que ficar se explicando sobre elas já dá uma ótima indicação de quais são as prioridades na sua vida, mas isso eu deixo para um outro dia.

 

No caso desse momento específico, posso dizer que sempre tive um atraso em relação a conhecer novidades. Até hoje não escutei na íntegra o Around The Sun, do R.E.M. que cheguei a incluir na minha lista de 2004. Não escutei (nem pretendo escutar) o tal do Clap Your Hands Say Yeah. Não se trata de ser fechado. É que não faz muito que descobri bons discos do passado. E gosto de curtir as coisas uma de cada vez, sem apressar meu ritmo de prazer (sem piadinhas de motel, por favor).

 

E calha nesses três meses, muita coisa boa lançada no ano passado caiu em minha mão, além de experiências pessoais que influenciaram nas escolhas terem adquirido sua real importância (ou apenas uma nova visão). De modo que, pela primeira vez desde 2002, quando comecei a publicar essas listas em algum site, me concedo o direito de atualizar os meus “melhores do ano”.

 

Então, lá vai:

(picado, por causa das restrições do UOL)



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h44
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NACIONAIS

Discos:

  1. Vc Vai Perder o Chão – Terminal Guadalupe
  2. Bizri – Iris
  3. Futura – Nação Zumbi
  4. Às Vezes, Céu – OAEOZ
  5. Baladas do Asfalto e Outros Blues – Zeca Baleiro
  6. Rehearseless – The ESS

 

Canções:

  1. Dizem – OAEOZ
  2. Umbrella  – The Vain
  3. O Bêbado de Ulysses – Terminal Guadalupe / Cachorro Magro – Íris
  4. Hoje, Amanhã e Depois – Nação Zumbi / Soy Loco Por Sol – mundo livre s/a
  5. Olho Por Olho, Dente Por Dente – Zumbis do Espaço / Devo Orar – Gruvox
  6. O Peso do Mundo – Terminal Guadalupe

 

Menção honrosa para o La Carne, que não lançou disco, mas fez os shows mais fodões.

Escrito por Leonardo Vinhas às 00h43
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INTERNACIONAIS:

 

Discos:

  1. Testosterona – Bersuit Vergarabat
  2. Anoche – Babasonicos
  3. Dimanche à Bamako – Amadou & Mariam
  4. Nashville – Josh Rouse
  5. Don’t Believe The Truth – Oasis
  6. Employment – Kaiser Chiefs

 Canções:

  1. Carismático – Babasonicos
  2. Te Mando Flores – Fonseca
  3. Like Eating Glass – Bloc Party
  4. The Importance of Being Idle – Oasis /  En La Ribera – Bersuit Vergarabat
  5. I Predict A Riot – Kaiser Chiefs
  6. Winter In The Hamptons – Josh Rouse

 Menção honrosa para o She Wants Revenge, ilustre banda desconhecida que lançou um puta EP massa (eu tenho no soulseek, Rubão, pega que você vai gostar).



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h40
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Orkuteiros da casa do caralho

Você já sentiu raiva?

 

Muita raiva, raiva avassaladora, aquela que te dá a certeza de que o mundo todo é idiota e só você, não? Aliás, você e mais uns poucos.

 

Pois é, somos todos idiotas. Mas alguns são mais. E não só.

 

São estúpidos, parvos, apalermados.

 

Tolos vazios ou cheios de merda (“de vento” seria elogio), cagadores de regras e de verdades.

 

Gente sem ortografia, sem idéias, e que se esconde sob pseudônimos como “Docinho”, ou combinações de maiúsculas e minúsculas.

 

Gente que não sabe grafar a porra do próprio nome.

 

Gente que vomita preconceitos idiotas em comunidades de categorizações não menos idiotas, gente que chama de “afinidade” o fato de ouvir a mesma banda. Porra, e agora eu tenho que compactuar com um canalha ou um acéfalo só porque ele escuta Terminal Guadalupe ou Grant Lee Buffalo?

 

Tenho que conversar com algum idiota que não sabe nem onde encontrar os acentos no teclado?

 

A humanidade, enfim, encontrou o caminho. Ele passa pelo orkut e chega à mediocridade. Daqui não tem mais volta.



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h07
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Na insônia (anda freqüente), achei isso aqui:

"A tarde, como todas as tardes de sol de São Paulo, foi esquizofrênica, dura, pesada. Minha nefasta companhia me conduziu à angústia, e procurei sair de lá com a ajuda de amigos. Uma amiga, por telefone (orelhão em frente ao Bob’s da Paulista), me mostrou um espelho e me deu perguntas. Outro amigo, num bar, me deu algumas fontes para respostas. No meio do caminho, a Rua da Consolação me mostrava o horizonte vermelho de entardecer que Deus desenhava com um sorriso. Lá, a certeza de que o meu caminho não passava mais por Taubaté e que os erros do passado tinham cobrado seu preço. A mágoa e a autocomiseração, estava escrito no painel divino, ficariam para trás. As lições não.

A partir deste dia, minha vida voltou a andar – as pernas estavam bambas, mas não mais cambaleantes. Satisfiz alguns desejos antigos, cometi novos erros e dei respostas diferentes aos que repeti, tracei planos que me levariam aos Estados Unidos e a um emprego em São Paulo. Esses planos, não me pergunte como, me levaram a passear sozinho por São Francisco Xavier, conhecer o interior da Argentina, alucinar em Foz do Iguaçu e fazer novos amigos em Curitiba. O emprego? Tudo começa a acontecer, mas nada em São Paulo. Taubaté, mesmo sendo minha residência ainda, não é mais meu local. A paciência deixou de ser uma fábula e começa a adquirir seus merecidos ares de virtude".

Escrevi isso em - acho - janeiro de 2005. Talvez possa achar palavras cabíveis para descrever o que senti ao reLê-las agora, estando onde estou.. Mas acho que elas seriam desnecessárias.

 

Minha casa não é mais Taubaté.

Minha casa não é Foz do Iguaçu (mas certamente aqui é uma cama muito agradável, e as noites não são mais de tormenta).

Minha casa é um bar, uma rua ou um colo, onde alguém esteja disposto a me acolher ou se deixar acolher por mim.

Um ano se passou. Mais gordo, mais velho, mais feliz. E muitos outros mais.



Escrito por Leonardo Vinhas às 01h09
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Babasonicos

Na atitude eles são insuportáveis, um misto de Stone Temple Pilots (amam todas as drogas e fazem questões de dizê-lo) e Los Hermanos (cuzões que acham que sua música é a melhor de seu país e não encontra paralelo no mundo). Ainda assim, bem pouca banda faz coisas tão ousadas quanto pop quanto eles. Sua arrogância pode ser muito bem ser justa.

Estou falando dos Babasonicos. Suas visões psicodélicas e historinhas repletas de significados e alusões sentimentais estão sempre condensadas em pequenas obras de dois a quatro minutos, sempre com um tom de guitarra envolvente e detalhes (percussão, teclados, ruídos) que não são um mero exercício de chiquê, mas sim fazem parte da composição de forma quase indelével – “quase” porque o insuportável Dargelos (vocalista e compositor principal) sabe compor melodias que, em sua maioria, se sustentam só no violão, ou mesmo só na linha vocal.

Nesses tempos de CDs caros, mercado insipiente e descargas internéticas, o jeito é buscar as músicas deles pela internet. Eu tive o prazer e a alegria de comprar dois álbuns originais (como é bom morar perto da Argentina!) e recomendo aos usuários de Soulseek as segundas faixas de ambos: “Risa” (de Infame, 2003) e o mega-hit cordobense “Carismático” (de Anoche, 2005). Se não gostar da banda, bom sei lá, você pode até ser normal, mas deve ser alguém muito mal-humorado.

 

Cuzão, mas um puta compositor.



Escrito por Leonardo Vinhas às 10h13
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Mateus 25

Não faz muito tempo, eu vi Deus.

 

Deus, com seus olhos azuis radiantes, de brilho maculado, estava mandando eu tomar uma decisão e dar um rumo na minha vida.

 

Deus estava num mirante da Tríplice Fronteira dizendo que era seu amigo e era bonito.

 

Deus estava sendo humilhado e agredido por um policial demente. Eu vi Deus balbuciar palavras de socorro em sua debilidade, mas a boa gente de Foz do Iguaçu estava muito ocupada indo aos seus cultos hipócritas ou contando seu dinheiro sujo para vir em seu auxílio.

 

Eu vi Deus, e Ele virou uma multidão para arrumar roupas, móveis e utensílios para minha nova casa.

 

Eu vi Deus, e Ele sorriu para mim.

 

Hoje Deus me deu uma pusta chance de Lhe agradecer por minha vida. Espero tê-la aproveitado ao máximo.

 

Trabalhou hoje, hein, Senhor? Pois valeu! Vou fazer valer!

Leo



Escrito por Leonardo Vinhas às 01h21
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Cromañon

Precisava escrever sobre. Faz tempo que penso no assunto. Por que? Talvez porque, como disse uma das mães das vítimas, "meu filho saiu de casa para ver um show, e não para imolar-se em nome de nada". Nada? Não sei. Sei que 194 pessoas morreram em agonia (queimadas, pisoteadas ou asfixiadas) e poderia ter sido qualquer um dos meus amigos, para quem um show é uma missa. Poderia ter sido eu.

Ou talvez algo menos piegas. Não sei ao certo. Sei que quando cheguei em frente à Casa Rosada e vi as marcas dos protestos, fiquei abalado. E num gesto que ainda não me é 100% claro, ergui a bandeira argentina em frente a um grafite (citado na matéria) e deixei que uma foto fosse batida. Foda.

Para quem não sabe do que eu estou falando: http://www.screamyell.com.br/musicadois/republicacromagnon.htm



Escrito por Leonardo Vinhas às 09h01
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Lembranças valem alguma coisa

“.. ele viveu muito mais vezes que respirou”

(O Chamado da Floresta, Jack London)

 

Lembranças. Elas não valem nada, diz o Ivan Santos, mas eu não acredito muito nisso, não. Condeno o ato de viver no passado, se agarrando a ele como uma criança tola se agarra a um travesseiro em busca de segurança para protegê-la de seus bichos papões, e que no fim só se coloca mais vulnerável a eles. Mas as lembranças valem. E muito.

Estava aqui, sentado nessa que é minha casa por seus últimos dias, quando meu amigo Barretão chegou com suas relíquias pessoais. Não aquelas quinquilharias que todo homem gosta de colecionar, os famosos “brinquedos de gente grande”. Seus próprios tesouros. As evidências de sua passagem pela Terra. Postais, fotos, boletins escolares, avisos e telegramas de universidades, recados altamente pessoais escritos por seus pacientes (ele é físico-médico), muitos deles terminais; cartas velhas de alguém que já representou muita coisa e hoje se assenta na memória afetiva como um misto de lembrança e indiferença; tudo trazendo realizações aos olhos de quem viveu e admiração aos que trilharam outro caminho, não menos digno e desbravador (me agrada pensar assim).

Na nossa época de tecnopraticidade burra e, efêmera e comodista, não há recordações para serem feitas. Qual é o valor de se guardar um e-mail, uma foto digital, um texto de um blog? Nada disso traz a poeira dos anos, a sensação sebosa do manuseio excessivo e o desgaste pelo mau uso. Imagine uma pessoa sem mágoas, sem rugas, cheia de vincos. São como as lembranças modernas funcionam. Ainda não chegamos ao ponto de ficarmos semelhantes a elas. Mas pelo andar da carruagem, isso não deve demorar.

Sei que alguns ainda acreditam nas lembranças reais e na vida real. Não vivem através do msn, do orkut, da porra dos e-mails. Alguns ainda acreditam em deixar sua marca e validar as lembranças. Não como orgulho tosco ou arrogância calculada. Apenas a sensação de poder encontrar as próprias pegadas quando olhar para trás.



Escrito por Leonardo Vinhas às 22h01
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Os dez piores discos nacionais

Está no ar a lsita do S&Y sobre os 10 piores discos brasileiros de todos os tempos. O critério, como você lerá na matéria, foi não chutar cachorro morto - algo meio impossível, já que nosso cenário está cheio deles e eu mesmo chutei um, o Ultraje a Rigor. Mas ainda assim não entram na avaliação nulidades como Jota Quest, Charlie Brown Jr, Detonautas, Astronautas e outros "nautas".

Não que essas bandas supracitadas não tenham obtido sucesso - os três primeiros estão "na crista da onda" até hoje e viraram a cara do "pop rock" (ô tristeza!)brasileiro. Mas somos elitistas mesmo e não nos dispomos a versar sobre esse lixo, como bem apontou o editor na introdução da matéria.

Claro, vou morrer discordando da menção ao Big Bang, do Paralamas, que afinal de cotnas tem belas canções, inclusive a desprezada "Esqueça O Que Te Disseram Sobre o Amor". Mas é um lance de opinião - e verdade seja dita, "Jubiabá" é pura lambaxé rasteira. Mas o lwegal de listas é exatamente essa polemização. Dê uma olhada lá e me mande suas listas também.



Escrito por Leonardo Vinhas às 17h33
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Uma paulada

Rebelde, agitador y revolucionario

Callejeros

Hoy me sacrifican como un cerdo por no estar de acuerdo
con conservas y militares
por no querer altares de oro y sangre
Me acusan de rebelde, agitador y revolucionario
por no pensar lo mismo (y decirlo)
que los que abusan de mi gente a diario
Cae el agua desde el cielo sobre un mar de desconsuelo
se hace eterno este silencio
lleno de real desolación
Mi madre me llamó jesús
y hoy mi pueblo me llora en la cruz
pero van ver, un día todo cambiará
habrá una iglesa que comprenderá
al reprimido y no al represor
y será honesta como lo fui yo…

 o tal vez no?

La espina ya está clavada no hay perdón
para el que aplasta contando una sola historia
a los que no encuentran solución

 

Tem almas que não estão mais nesse mundo embolatadas nas costas desses piás. Isso não é figura de linguagem: os Callejeros (“andarilhos”, “malandros de rua”, numa tradução bem porca) estavam tocando na boate Cromañon quando 194 pessoas perderam a vida por causa de um incêndio, ou queimadas, ou pisoteadas, ou asfixiadas. Estavam comemorando o êxito do disco Rocanroles Sin Destino quando um idiota disparou fogos de artifício em recinto fechado.

Já cheguei a pensar as coisas mais absurdas sobre isso. Que deu a merda que deu por eles terem feito essa letra. Que esses moleques brincaram com o destino. Que um monte de outras coisas mais. Tudo bobagem – os meus pensamentos, claro.

Agora, essas palavras...



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h45
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O velho homem tem um violão, feito com lascas de cedro que foram roubadas da cruz de Cristo. Ele carrega sua própria, é fardo demais carregar a de outro homem, pensa o velho. O peso, todavia, não está nos seus braços cansados nem na poeira de suas botas. Está nos olhos, que refletem a decrepitude da saúde e a tristeza de quem já viu de tudo e gostou de muito pouco.

O velho senta no degrauzinho de uma padaria e começa a dedilhar alguma canção que aprendeu há muito. Enxotam-no de lá sem muita demora, mas ele se recusa a ir à praça e sentar lá. Prefere ignorar a dor nas pernas a sentar em frente a uma igreja. Esse outro velho, pensa ele sobre Deus, já fez besteira demais para merecer minha consideração.

Seus sonhos são um pouco mais tristes que suas palavras. Alguém que desenvolveu o cinismo como um meio de vida já deveria ter desaprendido a sonhar, mas esse infelizmente não é o caso dele. E ele deita e sonha, com dores, fatos e esperança. O desejo de negar essa última é o que mais lhe dói.



Escrito por Leonardo Vinhas às 00h37
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Quase

Palavras de Olivetto, o Washington:

"O acelerado processo de carnedevacalização da sociedade mundial, também conhecido como globalização do zé-maneísmo, fez com que, em vez de famosos por 15 minutos, conforme o previsto, muitos chegassem ao novo milênio vulgares e deslumbrados por várias horas, provocando o surgimento de um novo personagem no cenário social: O Quase."

Aí ele descreve mais ou menos que o Quase é quase-culto, quase-inteligente, quase-famoso, quase-rico e às vezes quase isso tudo simultaneamente, dando vários exemplos de como identificar um "Quase" como "O Quase assistiu Beleza Americana e Matrix, mas perdeu O Jantar, do Ettore Scola. O Quase brasileiro usa expressões em inglês, enquanto o Quase americano usa em francês. O Quase leu Alain de Botton, mas não leu Machado de Assis. O Quase desfila em escola de samba, mas não frequenta ensaios nem sabe a letra do samba, e aquelas notas 9,5 são culpa de um grupo de Quases reunidos numa mesma ala. O Quase admira o Bill Gates, mas não liga pro Steve Jobs."

Eu tenho outras formas de enxergar o Quase:

O Quase vai no show do U2 e nem sabe quem é Franz Ferdinand. O Quase sai do show do U2 direto pegar seu abadá do Chiclete de Asa pro carnaval de Salvador.O Quase ainda chama o Bono de Bono Vox.

O Quase quase não vai ao cinema, mas sempre assiste ao filme que ganhou o Oscar. O Quase é espectador assíduo de novelas, especialmente as da Glória Perez. O Quase gosta tanto de novela que quando sai um filme com cara de novela, com diretor de novela, e atores de novela, vai ao cinema assistir. O Quase acha que "2 Filhos de Francisco" representa a retomada do cinema nacional. O Quase não assiste filmes que não são falados em inglês. O Quase prefere ver filme dublado.

O Quase votou contrariado no Lula. O Quase se sente traído pelo Lula. O Quase votou pelo Direito Constitucional de portar armas.

O Quase vai ver O Fantasma da Ópera, mesmo tendo assistido em Nova York, mas não assiste a uma única peça que não tenha atores de novela. O Quase não sabe o que acontece na Praça Roosevelt, nunca colocou os pés lá. Mas o Quase vive dizendo que adora teatro!

O Quase não gosta muito de futebol, mas vê jogos da Seleção na Copa. O Quase discute futebol em época de copa. O Quase, obivamente, torce pro São Paulo, o time mais Quase do mundo! O Quase nunca teve um Kichute.

O Quase não lê, mas compra os livros do Paulo Coelho e aguarda ansiosamente a estréia do Código da Vinci (o filme) pra poder dizer que leu o livro. O Quase acredita em Auto Ajuda, Gnomos, Feng Shui, Pirâmides, e qualquer bobagem transcedental fundada na crença de que ninguém jamais perdeu dinheiro ao subestimar a inteligência do povo. O Quase é esotérico. O Quase pergunta seu signo.

O Quase preza estar de bem com todo mundo.

O Quase acha que a única música boa do Los Hermanos é Anna Julia. O Quase gosta de Jota Quest, o Quase metido a quero-ser-doidão-mas-minha-mão-não-deixa gosta de Charlie Brown Jr. O Quase politicamente correto, meio USP e engajadinho contra injustiças sociais, ouve Rappa. O Quase gosta da Maria Rita, mas nunca ouviu a Elis cantando Corsário ou Nas Asas da Pan Air. O Quase é eclético, adora dizer que ouve de tudo.

O Quase tem um único disco dos Beatles em casa: uma coletânea!

Cuidado, tem sempre um Quase perto de você.

(isso foi tirado do blog Febre Alta, do Randall Ferreira Neto, gentil e necssária recomendação do Mário Bortolotto. Parem de ler as notícias do Uol e visitem os dois blogs. Valem muito mais a pena)



Escrito por Leonardo Vinhas às 09h03
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